domingo, 21 de agosto de 2011

Ronaldo Baptista : A voz da publicidade brasileira


Ronaldo Baptista   

A voz da publicidade brasileira
                                                                       Por Hugo Kochenborger da Rosa
Grande dose de talento e belíssimo timbre de voz, fizeram do paulista Ronaldo Baptista durante muitos anos o locutor mais solicitado pelas agências de publicidade para a gravação de peças comerciais, tanto para o rádio, quanto para a televisão. Afinal, para qualquer empresa que se preze, ter seu produto valorizado pelo brilho e talento desse ator, locutor e jornalista nascido à 18 de setembro de 1933 (ele completa 78 anos neste domingo), já era por si só, um grande empurrão na hora de colocar no mercado um novo artigo, ou mesmo, valorizar uma marca já consagrada com uma boa chamada institucional.
Basta citar, que a voz de Ronaldo Baptista foi uma das poucas que tiveram o privilégio de participarem das primeiras peças publicitárias por ocasião do lançamento do ”Volkswagen” – Nome oficial do carro hoje conhecido como “Fusca”. Atualmente  o locutor, que não obstante a fama é uma pessoa acessível, atenciosa e de grande modéstia; detém simplesmente, segundo o “Clube da Voz”, entidade que congrega as melhores e mais caras vozes do Brasil no mundo da propaganda, o título de locutor comercial brasileiro mais importante de todos os tempos. A justificativa: “Ainda que não exista uma estatística oficial a respeito, tem-se como ponto pacífico no meio da publicidade que no Brasil, nenhum profissional do metier, até hoje, sequer chegou perto da quantidade de comerciais gravados por Ronaldo tanto para o rádio quanto para a televisão, ao longo de suas mais de cinco décadas de atuação no mundo da locução publicitária”.
As facetas de Ronaldo Baptista não param: dublagem, narração de “estorinhas infantis”, participação como ator em discos humorísticos, aparições em programas televisivos,  entre outros, também integram seu mundinho particular...
Confira agora um bate-papo com essa simpática figura!

Hugo - Ronaldo, quando você começou sua carreira de locutor?

Ronaldo  Baptista (RB) - Comecei no rádio em São Paulo, à 13 de julho de 1951,  aos 17 anos de idade, a partir de um pequeno contrato assinado junto à rádio América,  com a anuência de meus pais. (Na ocasião, ainda faltavam dois meses para que eu completasse a maioridade). Nessa época, acabara de encerrar meus estudos que tiveram duração de um ano na Universidade Artística de Rádio (UAR), que era uma instituição criada por Normet Pinheiro e sua esposa,  Ruth Sauaya.  Semanalmente esse casal promovia um “Teatro Experimental”, com duração de meia-hora, e que era levado ao ar na rádio Cultura. A interpretação artística era justamente dos alunos daquela escola (UAR). Entre as personalidades que mais tarde lograriam grande fama e que freqüentaram  a Universidade Artística do Rádio, da para citar: Cláudio Marzo, Francisco Cuoco, Murilo de Amorim Correa, entre outros.  Logo iniciei minha carreira. Posteriormente, tive ainda passagens por outras emissoras como as rádios Cultura, Bandeirantes (por vinte e um anos), Record (por dez anos), e Capital (por vinte anos),  na qual apresentei diversos programas e fui voz-padrão.
Fiz também durante cerca de 20 anos muitas peças de radioteatro, sendo que dentre as centenas de obras que representei, O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, talvez tenha sido a que maior audiência obteve. Era o programa mais ouvido em São Paulo no horário das 22hs, numa época em que a televisão ainda tinha uma presença muito tímida nos lares brasileiros.

Hugo – E a parte da dublagem como entrou em sua vida?

RB - Em certa oportunidade, recebi um telefonema de Glauco Laureli, para participar das dublagens de “As Aventuras de Rin-Tin-Tin”, pela Gravasom (empresa fundada em 1958),  onde dublei o tenente Rip Masters nas sete temporadas da série. Também  tive a felicidade de indicar o jovem Zezinho Cútolo,  que eu já conhecia da Rádio Bandeirantes. Zezinho dublou maravilhosamente o Cabo Rusty.
Um dos mais célebres personagens com dublagem original de Ronaldo Baptista: Tenente Rip Masters do seriado Rin-Tin-Tin.  (na foto ao lado Cabo Rusty e o proprio "Rintin")

 Naquela época recebíamos 1 cruzeiro para cada anel, take ou tomada dublada. Com a prática adquirida dava pra dublar uns 30 anéis por hora. Como sempre atuava como protagonista, ou seja, o que “mais falava”, dava pra tirar um dinheirinho bom no final do mês.  O “extra”, ganho como dublador, permitiu-me significativa melhoria nas finanças pessoais.
Ainda na Gravasom  dublei a série “Quinta Dimensão” e algumas aberturas do seriado “Além da Imaginação”, que até poucos anos atrás ainda podia ser assistido no canal por assinatura USA (atual Universal Channell)..
Depois, a Gravasom foi adquirida por Mário Audrá, que investiu pesadamente em novos equipamentos, uma vez que a demanda pelas dublagens aumentava cada vez mais. Nascia ali a AIC.. Desta forma as dublagens de Rin-Tin-Tim, que começaram na Gravasom, terminaram na AIC.
Em seguida veio “Viagem ao Fundo do Mar”, e com ele, o personagem do Almirante Nelson,  vivido pelo ator  Richard Basehart, o qual dublei,  nos 110 episódios das quatro temporadas.
Foi nessa época, em 1967 que recebi o prêmio “Governador do Estado de São Paulo”, como melhor radioator do ano. Fui o dublador oficial do ator Tyrone Power em grande parte dos seus filmes.
Cheguei também a fazer televisão, na época da fundação da TV Bandeirantes, quando fui contratado por 500 cruzeiros para participar de um programa humorístico chamado “Cidade de Araque”. Esse programa reunia vários esquetes cômicos e poderia ser comparado com o atual “A Praça é Nossa”. Depois fiz um programa chamado “Sequencia das Oito”, onde interpretei em seis episódios o detetive Sherlock Holmes.
Apareci também em vários programas e videos promocionais, como policial. Adoravam me escalar para interpretar tal personagem, talvez pela minha voz e tipo físico.
Voltando ao assunto da dublagem: dentro do universo infantil,  bem mais tarde, fiz ainda algumas narrações para a “Turma da Mônica”, a pedido da produção do Maurício de Souza. Durante muito tempo, também, fiz narrações para a Disney em chamadas promocionais e dublagens de filmes, como seu locutor oficial em língua portuguesa.
Almirante Nelson  (Richard Basehart): seriado "Viagem ao Fundo do Mar"

Hugo- Nos anos 60 você teve um programa de grande sucesso na rádio Bandeirantes de São Paulo, o “Patrulha Bandeirantes”. Como era esse programa?
RB – Era um programa muito interessante, onde teatralizávamos  acontecimentos policiais. Era como uma espécie de radionovela, só que da vida real. Fatos verídicos vivenciados no universo policial eram recolhidos e dramatizados nesse espaço.  A reportagem musical desse programa era de Celso Teixeira.
Ronaldo com a familia nos anos 60 (esposa Therezinha e filho Ronaldinho)
 Hugo – E o programa “Bom à Beça”?
RB –  Era um programa musical de variedades. Nele recebi artistas dos mais variados perfis, desde  Orlando Silva, até o Trio Esperança.. Foi num dos programas desta série, que Roberto Carlos  divulgou em primeira mão seu primeiro disco, “Louco Por Você”.
Hugo - Segundo os  anais da publicidade, você é considerado  muito provavelmente como o  locutor que mais  peças publicitárias gravou para o rádio e a televisão no Brasil até hoje...
RB - É bem possível que sim. Só posso dizer sobre isso que é muito gratificante ter contribuído um pouquinho no que se fez em termos de locução publicitária nesses anos todos no nosso país. Fico muito feliz com tudo o que aconteceu, e em 2001, ao completar com muita alegria meu jubileu de ouro profissional, recebi uma  linda e inesquecível homenagem, através de uma festa com doze horas de duração,  transmitida  ao vivo pela rádio Capital de São Paulo.
Ronaldo na Rádio Record SP - meados dos anos 70
Hugo – Descreva o roteiro de alguns comerciais marcantes que você tenha gravado no decorrer de sua carreira profissional como locutor comercial
RB - Foram tantos.. fica muito difícil lembrar... Mas assim de cabeça, eu citaria um dos primeiros comerciais da Volkswagen, ainda dos anos 60. Nesse comercial o Fusca aparecia com o letreiro de “auto-escola” estampado nas portas laterais. Eu dava “dicas” como se fosse um instrutor para a então muito jovem atriz Regina Duarte, que, toda atrapalhada tentava com bastante dificuldade por em movimento o sedan, dando uma “surra” no carrinho, pondo sob prova total a resistência do automóvel. No final, entrava outro colega locutor (infelizmente me falta no momento o nome dele),  que “assinava” o comercial, reforçando que o veículo era feito para durar, e que suportava as piores situações sem enguiçar..(como ser guiado por uma aprendiz de motorista como a Regina). Essa idéia era passada na seguinte frase: Você já imaginou, se não fosse um Volkswagen??? (risos..)
Tem outro, esse dos anos 80 e que ficou durante muitos anos no ar. O dos coelhinhos da Duracell, onde o coelhinho carregado com pilha comum era contrastado com um carregado com a Duracell, ambos caminhando e tocando tambor.  O coelhinho da pilha comum logo perdia as forças e parava, enquanto isso o da pilha Duracell prosseguia empertigado e com energia (risos).
Hugo – A partir dos anos 60 você apareceu em vários discos, em especial humorísticos e infantis. Como foi essa experiência?
RB - Foi inesquecível. Fiz participação em dois discos cômicos de Vitório e Marieta, um casal italiano muito engraçado e de grande sucesso na época, tanto no rádio quanto na televisão. Era vivido pelos atores Murilo de Amorim Correa (comendador Vitório) e Maria Tereza (Marieta). O nome dos LP´s: “Show Riso” e “A Volta ao Mundo em um Só Riso”, ambos pela Odeon.  Bem no finalzinho dos anos 60, comecei a narrar historinhas infantis para a “Abril Cultural”. A série, conhecida como “Estorinhas de Walt Disney”, era um suplemento composto por um livrinho ilustrado que contava uma determinada historinha ou conto infantil, e encartado neste vinha um disquinho de 7” (compacto simples), gravado nos estúdios da gravadora RGE para a RCA Victor,  onde cada historinha vinha dramatizada por excelente cast artistico formado por feras da dublagem nacional.
Figuras que vocês conhecem bem ainda nos dias de hoje como a Helena Samara (dubladora da ”Dona Clotilde” – a “Bruxa do 71” do seriado Chaves), Rita Cléos, (dubladora de “Samantha Stephens”, no seriado A Feiticeira),  Borges de Barros (dublador do “Moe” dos Três Patetas, também do “Dr Smith” de Perdidos No Espaço) – todos infelizmente já falecidos – estavam entre os muitos artistas que formaram o elenco para este projeto.  Minha parte nessa produção consistia na narração das historinhas. A trilha sonora era toda original dos filmes dos estúdios Disney.
O convite para  ser o narrador oficial desta enorme coleção, que totalizou 68 fascículos diferentes, ocorreu após eu ter participado de alguns testes,  e partiu da escritora gaúcha de literatura infantil Edy Lima, que era também a responsável por adaptar os textos.
Para as gravações, eu buscava inspiração, imaginando estar rodeado por crianças sentadas no chão, olhando para mim como a um pai paciente e cativante a lhes contar aquelas lindas historinhas.
Dois exemplos de discos de humor com a participação de Ronaldo Baptista
Hugo – Lembra de alguns títulos lançados nessa coleção?
RB – Como já falei, foram dezenas de volumes. Essa série, posteriormente seria relançada em diversas ocasiões de modo periódico ao longo dos anos, com capas diferentes, mas com o mesmo conteúdo. Alguns deles: Bambi, Se Minha Cama Voasse, Chapeuzinho Vermelho, Pedro e o Lobo, Dumbo, O Alfaiate Valente (estrelado pelo rato “Mickey”, Ursinho Puff (hoje o chamam de “ursinho Pooh”), O Natal do Tio Patinhas, Pinóquio, Peter Pan, Mogli, Cinderela, O Carro Que Falava, O Gafanhoto e as Formigas, João e Maria, Branca de Neve, Donald e a Bruxa, 101 Dalmatas, entre muitos outros. Até hoje recebo muito carinho das crianças de todas as idades que relatam quanta alegria essas historinhas proporcionaram à infância delas. Somente essas palavras de carinho e gratidão já bastariam para que eu me sentisse um ser humano melhor, e percebesse, que todo esse trabalho não foi em vão. E essa sensação de “trabalho cumprido”  não tem preço! Sinto-me totalmente feliz e realizado!!
                    Chapeuzinho Vermelho "Estorinhas de Walt Disney" - Narração Ronaldo Baptista (1974)
Ronaldo foi o narrador oficial da série "Estorinhas de Walt Disney" Ed. Abril
Hugo – O que você tem feito atualmente?
RB – Saí da Rádio Capital em 2005, após 21 anos de trabalhos dedicados àquela casa. Cheguei a ser sondado para atuar como voz-padrão da Rádio Record em 2008, mas infelizmente não houve acordo. Entretanto, de qualquer forma, senti-me feliz com a lenbrança do meu nome. Ainda tenho trabalhado bastante, graças à Deus, mas ultimamente tenho reservado um tempinho todo especial para as artes plásticas (sempre adorei pintar), e é claro,  para curtir minha família, que eu amo muito. N do A EM 22.01.2012:   INFELIZMENTE, RONALDO BAPTISTA VEIO A FALECER DE CAUSAS CARDÍACAS,  INESPERADAMENTE NO DIA 15.01.2012, AOS 78 ANOS, DEIXANDO UMA TRISTE AUSÊNCIA A TODOS NÓS:  FÃS, AMIGOS E ADMIRADORES DE SUA FIGURA HUMANA MARAVILHOSA E DE SUA BELA VOZ.  ESSA FOI A ÚLTIMA ENTREVISTA CONCEDIDA POR RONALDO BAPTISTA.
Circulou  no caderno de cultura "Blitz" da rede de radios e jornais Diário da Manhã, encartado em comum  nos jornais de Passo Fundo, Carazinho e Erechim (RS), em 16.09.2011
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6 comentários:

  1. Oi Huguinhu... Maravilhosa entrevista. Esses compactos se não me engano foram lançados em vinil de 7 polegadas umas duas vezes nos anos 70. a primeira remessa era dada de presente em troca de tampas de margarina doriana e tinha o rótulo amarelo. depois , a nova prensagem teve o rótulo laranja. eu tive alguns, que gostava muito; pedro e o lobo, o piquenique de mickey, a espada era a lei, bela adormecida, a galinha ruiva... hummm... galinha ruiva eu baixei no 4 shared... sabe como posso baixar as outras? oh sim, em meados de 1985 então os compactos foram relançados em cassettes, com uma história de cada lado. UAU! esse LP de Vitorio e Marieta deve ser de rolar de rir... snif... queria esse áudio...

    Jorge Khlat

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  2. Olá meu querido amigo Jorge, que prazer em vê-lo por aqui!
    Acho que foram pelo menos três edições de Estorinhas de Walt Disney nos anos 70. Uma em 70, outra em 74 e uma em 79. Nos anos 80 parece que também foram reeditados. Sei que os fascículos eram vendidos em bancas de jornais. Mas é possivel que tenha em determinada época ocorrido essa promoção a que você se refere da Doriana.
    Infelizmente não sei onde encontrar para download. Tem alguma coisa no youtube (como essa do chapeuzinho vermelho que eu postei).
    Um dos discos do Vitório e Marieta tem no blog Outrasbossas no seguinte endereço:
    http://outrasbossas.blogspot.com/search?q=vit%C3%B3rio+marieta

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  3. Ronaldo Baptista tinha uma grande voz! Ele, Ramos Calhelha, Hélio Ribeiro, Henrique Régis, Cid Moreira, Ferreira Martins e Antônio Freitas foram e são as mais belas vozes do rádio e da televisão brasileiros! Me lembro bem de um programa que Ronaldo apresentou na Rádio Record AM, aos domingos à tarde, por volta de 1981/82! Vá com Deus, Ronaldo, e descanse em paz!

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  4. Acho que é necessário corrigir a legenda da foto do Almirante Nelson, o nome do ator é "Richard Basehart", que fez o papel durante toda a série de TV. O outro ator "Walter Pidgeon" assumiu o personagem apenas no filme piloto anterior, feito para o cinema.

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  5. Parabéns por essa entrevista histórica.A propósito, foi o Ronaldo quem narrou o lp da Família Barbapapa tmb, né isso?

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  6. Parabéns pela matéria e obrigada ao Ronaldo por lembrar de meu pai.

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